Os filhos usam birra e chantagem para dominar os pais, mas as famílias que cedem ao capricho infantil estão comprometendo o futuro dos pequenos.

As criança não estão para brincadeira! Elas sabem exatamente o que querem e exigem dos pais as regalias e recompensas que julgam merecer. Ao receber um “não”  fazem manha e geram constrangimento em diversas situações. Afinal, como lidar com essa geração que parece não ter limites? A resposta é simples: estabelecendo limites!

Apesar de simples, a resposta não tem uma execução fácil. Os pais estão confusos e os papéis se inverteram. As crianças parecem ditar todas as regras e a dinâmica da casa. Temerosos e tímidos, os adultos tentam não contrariar os pequenos, a fim de evitar os resmungos e chantagens emocionais deles. No fundo, o que os pais temem é não serem amados pelos filhos, caso frustrem os caprichos das crianças.

Por isso, é preciso pôr os pingos nos “is”. O que realmente pode prejudicar uma criança: não ter seus desejos atendidos ou ter sempre seus desejos atendidos? Como estabelecer limites aos filhos e exercer saudavelmente o papel de autoridade, que é a principal prerrogativa dos pais?

O fato é que ninguem nasce sabendo ser pai e mão, nem sabe o tipo de filhos que terá. Por isso, os pais estão em aprendizado constante. Mas não é preciso ter medo de se colocar no papel que é só seu: o de ajudar a criança a respeitar limites e ter adequação social. Sim, isso se aprende em casa, no balanço das negociações entre deveres e direitos.

Contudo, para estabelecer limites, eles precisam ser claramente comunicados. A criança precisa ouvir, numa linguagem que possa compreender, o que se espera dela. Inclui também saber quais são as regras do comportamento que ela deve adotar dentro e fora de casa, como não gritar, atender imediatamente aos pais quando for chamada, arrumar os brinquedos após as brincadeiras e não mexer sem permissão em objetos de outras pessoas. Após ser comunicado o que se espera da criança, ela precisa conhecer a consequência de não cumprir o que foi acordado, como ficar sem assistir TV ou ter suspensa sua mesada. A consequência precisa ser proporcional à gravida da desobediência e, uma vez explicado o “castigo”, ele deve ser cumprido.

O que os pais devem entender é que permissividade é blefe. Parece uma demonstração de amor, mas no fundo é a falta dele. Quem ama corrige. Movidos pelo sentimento de culpa por não dedicarem tempo suficiente de convívio com os filhos, muitos pais não cumprem seu papel disciplinador. Patrocinam e promovem todo tipo de exigência e capricho das crianças, mas não se envolvem verdadeiramente com elas, algo que exige tempo para escutar, brincar e ensinar. E tempo é artigo de luxo nas famílias de hoje!

Quando uma criança tem um chilique, talvez seja sinal de que os pais não estão interferindo de maneira adequada na vida dos filhos. A influência do cérebro do adulto ajuda a regular o infantil. E, para ser feliz, a criança precisa treinar seu autocontrole, algo que parece “fora de moda, mas que é imprescindível para o sucesso.

Um estudo longitudinal feito pela psicóloga clínica Terrie Edtih Moffitt e colaboradores analisou mil pessoas desde o nascimento até a idade de 32 anos. A pesquisa da professora da Universidade de Duke (EUA) mostrou que o exercício do autocontrole na infância tem implicações na saúde física dos adultos, na diminuição do índice de dependência de susbtâncias, no melhor controle das finanças pessoais  e contribui até para a segurança pública, reduzindo a criminalidade. Em outro estudo, a pesquisadora também constatou que bebês incentivados a controlar os próprios impulsos tiveram menos doenças posteriormente, além de casamentos mais durradouros e maior sucesso profissional.

Estabelecer limites para as crianças é muito importante, pois disso depende a saúde mental delas também. Somente com limites é possível promover o desenvolvimento do seu filho para que ele seja alguém realizado e um cidadão digno.

  • Talita Castelão, psicóloga clínica, sexóloga e doutora em Ciências. Revista Adventista